quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Uma nova sociedade comunicativa

Os estudos acerca das tecnologias digitais enquanto agentes de transformação do ser social na atualidade, passando por teorias que apontam para uma verdadeira revolução em curso, tem sido pautadas não mais por simples apontamentos acerca da comunicação instantânea e do acesso quase que imediato a um volume imenso de informações de toda natureza. Não se pode mais pautar as conversas em questões tecnológicas, ou mesmo mercadológicas. A questão é mais profunda. Não que as ferramentas e suas características não sejam primordiais em todo esse processo de digitalização do mundo contemporâneo, longe disso. Mas o que realmente está sendo colocado é a forma como as diferentes mídias e os variados dispositivos estão transformando a forma de ver o mundo e, mais que isso, de atuar diretamente na construção colaborativa deste mundo. Os processos de elaboração e reconhecimento dos fatores que nos envolvem nunca estiveram tão próximos de cada indivíduo e, ao mesmo, nunca puderam ser criados e recriados por uma cultura participativa. Não são mais só as instâncias de poder que detém as ferramentas para esta transformação. Elas estão por aí, nas mãos de crianças que criam blogs para escancarar problemas nas escolas que estudam, nas comunidades virtuais que se formam para estudos de sustentabilidade e nos grupos políticos que mobilizam milhares de pessoas em torno da construção de uma nova lei contra a corrupção na política. Elas estão nas mãos de cada um de nós. Não é de hoje, óbvio, que utilizamos as ferramentas para modificar o mundo a nosso favor. O próprio conceito de ferramenta está ligado a estender as habilidades físicas e psíquicas dos seres humanos na execução de trabalhos e outras atividades na busca pelo seu bem estar. O primeiro homem ou a primeira mulher a utilizar uma pedra lascada enquanto instrumento de corte para partir seu alimento percebeu que, dentre tantos outros seres vivos, éramos nós que detínhamos essa capacidade. São estes instrumentos, essas peças de mediação com o mundo que nos tornam capazes de nos adaptar a condições diversas de ordens naturais. Desenvolvemos novas funções a partir das ferramentas, estas que Vygotsky chamaria de funções psíquicas superiores. Resulta improbable que el empleo de herramientas, que se distingue esencialmente de la adaptación orgánica, no conduzca a la formatión de funciones nuevas, a un comportamiento nuevo, que ha surgido en el período histórico de la humanidad y al que denominamos convencionalmente conducta superior para diferenciarlo de las formas que se han desarrollado biológicamente, ha de tener forzosamente un proceso de desarrollo propio y diferenciado, vías y raices (VYGOTSKY, 1995, p. 35). Contudo, não se pode assumir que são as ferramentas que nos definem como seres diferenciados. São instrumentos construídos a partir das demandas de nosso corpo e de nosso intelecto que criamos para facilitar os caminhos da relação com o outro e com o mundo. As ferramentas não são os fatores determinantes na organização social, mas sim parte dela. Seguindo este mesmo raciocínio, vivenciam-se, a partir do final do século passado, alguns dos avanços mais significativos da história humana no que consta a sua forma de comunicação com o outro. Em décadas, criou-se estratégias muito mais elaboradas de diálogo para além da fala do que em milênios de transformações sociais. Alguns chamam de revolução digital. Outros apelidam essa geração de “Idade Mídia” (em alusão, claro, ao termo comumente utilizado nas aulas de história “Idade Média”, curiosamente período da história ocidental de grandes dificuldades no avanço da ciência e da tecnologia). Se a popularização da mídia impressa e das técnicas de impressão dinâmica propiciaram a expansão da imprensa e, mais tarde, o rádio e a televisão tiveram a mesma função, aumentando a gama de canais de comunicação, eles ainda eram instrumentos das instâncias de poder de difundir as informações por elas escolhidas. Até hoje, mesmo com os visíveis avanços técnicos, são considerados instrumentos de um para muitos, ou seja, que partem de um grupo bastante pequeno de pessoas, grupo este bastante delimitado, para todos os demais. É com o advento e, posteriormente, a popularização da internet que essa dinâmica têm se alterado. Esta nova ferramenta tem um papel fundamental em uma nova dinâmica social, mas, como dito anteriormente, não a determina. Seu uso é o resultado de uma lacuna existente nas dinâmicas de interação e, portanto, não é o marco zero desta nova sociedade, mas sim um de seus indicadores. O nosso mundo está em processo de transformação estrutural desde há duas décadas. É um processo multidimensional, mas está associado à emergência de um novo paradigma tecnológico, baseado nas tecnologias de comunicação e informação [...] Nós sabemos que a tecnologia não determina a sociedade: é a sociedade. A sociedade é que dá forma à tecnologia de acordo com as necessidades, valores e interesses das pessoas que utilizam as tecnologias. Além disso, as tecnologias de comunicação e informação são particularmente sensíveis aos efeitos dos usos sociais da própria tecnologia (CASTELLS, 2005, p.17). Assim, os computadores, bem como a internet, as cadeiras e as panelas não deixam de serem ferramentas criadas para possibilitar ao ser humano um passo adiante enquanto interface com o mundo ao seu redor. Não é, portanto, a capacidade de um dispositivo que determina sua utilização, mas sim o sentido que aquela ou aquele que o manipula lhe dá. No caso das tecnologias digitais, elas permitem várias maneiras de realizar cálculos complexos de forma dinâmica e em uma velocidade impressionante; precisão e potencialidades artísticas e estéticas quase que infinitas na construção de elementos gráficos e audiovisuais; agilidade na tramitação de informações, documentos, correspondências e burocracias das mais diversas; qualidade técnica na criação ou na ressignificação da produção cultural; dentre tantas outras. Todavia, como dito anteriormente, essa tecnologia não é responsável por tantas aplicações. É só a ferramenta intermediária da capacidade humana. Nesta mesma lógica, o poder de comunicação e de interação permitido por estas novas mídias é gigantesco. As possibilidades que emergem a partir de instrumentos como páginas web, textos colaborativos wiki, fóruns, blos, redes sociais e diferentes formas midiáticas são muito extensas, mas dependem inteiramente de cada indivíduo social, de cada sujeito inserido em seu contexto, sua comunidade. Assim, pode-se afirmar que as tecnologias digitais de informação e comunicação não transformam o agir da sociedade, mas sim o contrário. Não há comunicação sem dialogicidade e a comunicação está no núcleo do fenômeno vital. Neste sentido, a comunicação é vida e fator de mais-vida. Mas, se a comunicação e a informação ocorrem ao nível da vida sobre o suporte, imaginemos sua importância e, portanto, a da dialogicidade, na existência humana no mundo. Neste nível, a comunicação e a informação se servem de sofisticadas linguagens e de instrumentos tecnológicos que "encurtam" o espaço e o tempo. A produção social da linguagem e de instrumentos com que os seres humanos melhore interferem no mundo anuncia o que será a tecnologia (FREIRE, 2010, p. 75) Bibliografia CASTELLS, M.; CARDOSO, G. (Org.). A Sociedade em Rede: Do Conhecimento à Acção Política. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2006. Disponível em: http://arnic.info/Papers/Sociedade_em_Rede_CC.pdf. [acessado em 22-08-2012]. FREIRE, P. À sombra desta mangueira. 7ª Ed. São Paulo: Olho d'Água, 2010. VYGOTSKI , L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1991. ______. Obras escogidas. Tomo III. Madrid: Visor Distribuciones, S.A., 1995.

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